

PROIBIDO JOGAR LIXO
Eu tenho um cotidiano de causar inveja a qualquer energúmeno. E, se por algum contratempo essa sequência é interrompida, no outro dia amanheço virado no “cão”. É batata: chego do trabalho às 19h e, enquanto Agripina prepara o jantar, tomo uma Pitú com limão para abrir o apetite. Se nem assim ele aparece, tomo logo outra. Janto, abro uma lata de cerveja para ajudar na digestão e me esparramo no sofá para assistir a vídeos inúteis no TikTok ou a qualquer inutilidade na TV. Teve vontade de seguir essa vida? Eu aconselho a não tentar. Principalmente a parte da cachaça. Pois bem, cheguei na terça-feira à noite e, quando ia visitar a garrafa, escuto o berro da Agripina: — Esqueceu que amanhã é dia de coleta de sangue? São doze horas de jejum! E trate de jantar logo, com fome ou sem fome! Já fiquei azedo. Com o grito, com o jejum e, mais ainda, por saber que iriam sugar o meu precioso sangue itiubense. Jantei sem vontade mesmo, mais cedo do que de costume e sem minha dose de pitú com limão. Fui para o sofá e tentei ver TV, mas, sem minhas latinhas, não consegui engrenar. No TikTok, nada tinha graça. A frustração só aumentava. Fui para a cama antes da hora, e o sono não vinha. Passei a noite em claro e, na madrugada, com a barriga já grudada no espinhaço, aí é que não se dorme mesmo. Pela manhã, enquanto eu tomava banho, Agripina passava o café. Me senti igual a um entregador de pizza: sentindo o cheiro bom... mas sem poder provar. No meio daquela confusão mental provocada pela fome, achamos que era dia da coleta de lixo. Foi quando ela mandou a ordem: — Leva o lixo. Lá fui eu. E, justo nesse dia, o elevador estava quebrado. Desci os lances de escada resmungando, mas fui. Quando cheguei à calçada, cadê o caminhão? Nada de coleta. Pensei comigo: — Agora que desci, não subo com esse saco para depois ter que descer de novo nem a pau. Saí andando com o lixo na mão até que, numa viela, resolvi me livrar do problema. Encostei o pacote no pé de um poste. Foi quando ouvi uma voz de não sei onde: — Ei! Não sabe ler, não? Respondi na lata: — Sei, sim! Lá no meu Urubu, na minha ITIÚBA, eu fui até alfabetizador! — Pois então?! — rebateu o homem. — Pois então o quê? — perguntei. — Não pode jogar lixo aí! — Mas eu não joguei lixo — corrigi. — E isso aí? Eu vi você jogando! E a placa está dizendo bem grande: “É PROIBIDO JOGAR LIXO”! Leia, seu lixo! Nessa hora, meu sangue itiubense ferveu. Só não parti para a ignorância, para a agressão física porque fui muito bem educado nas melhores escolas da minha ITIÚBA. Mas respondi, já no limite da paciência: — Seu energúmeno... o senhor me viu colocando o lixo. Não me viu jogar. É coisa bem diferente! Larguei o saco lá mesmo, virei as costas e me piquei para o posto de saúde.
S. Paulo, 01/10/2026 CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 01/10/2026
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