CORDEIRO de ITIÚBA

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VIDRO TEMPERADO

 

Eu
almoçava num restaurante que fechou durante a pandemia e reabriu esta semana, “sob nova direção”.

Fui lá.

Como
estou fazendo implante dentário, não ando conseguindo mastigar direito.

Pedi
ovos mexidos com gorgonzola.

A
garçonete — CUrvilínea e com uma simpatia além da que eu mereço — anotou o pedido e saiu.

Fiquei
esperando.

E aí,
não sei se pela fome, pela idade… ou por puro sarcasmo do destino, li um cartaz na parede:

“CUzinho temperado com amor.”

Pensei:

— Nossa… o troço já é bom por natureza… temperado com amor, então… Ave Maria!

Quando
a garçonete voltou com meu prato, puxei conversa.

Perguntei
o nome dela.

— CUnegundes — respondeu. — Mas não vá me chamar de “boca de fogo”, igual à da novela, não… porque meu fogo é em outra boca!

E caiu
na gargalhada.

Pronto.

Me
senti em casa.

O
cartaz já fazia todo sentido.

Conversa
vai, conversa vem, perguntei:

— Você é irmã do dono?

— Não… sou CUnhada.

Como o
movimento ainda estava fraco, continuamos o papo.

Velho
e curioso — como quase todo velho — não me segurei:

— E aquele cartaz ali?

Ela,
muito tranquila, explicou:

— Ah… eu até discordo do meu CUnhado. Eu preferia que fosse “comida temperada com amor”… mas ele insiste em “cozinha temperada com amor”.

Na
hora, estranhei.

Levantei.

Fui
olhar de perto.

E aí entendi tudo.

Quem
precisava trocar de óculos era eu.

Eles —
e a fome — estavam me traindo.

Pronto.

Foi aí
que lembrei também por que estou banguela.

Quando
chegou o fogão novo lá em casa, eu não estava.

Instalaram
tudo.

Quando
cheguei, já estava funcionando.

Eu,
com a pança cheia de Pitú e vazia de comida… óculos embaçados…

Li na
tampa:

“VIDRO TEMPERADO”.

E, sem
pensar duas vezes…

Piquei-lhe o dente!

S. Paulo, 11/11/2025

www.cordeiropoeta.com.br

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Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 31/08/2026


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