

O QUARTO VELHO
Ah, mestre RAIMUNDO SOUZA, queria tanto que o senhor visse minhas mãos. Depois que me aposentei, de tanto não fazer nada, hoje elas estão tão fininhas, tão lisinhas. Lembram as suas. Só falta aquele tato sensível que me ajudou a aprender a escrever. É por isso que estou lhe escrevendo. E aproveito esta escrita para lhe contar um sonho. Sonhei que fui lá na minha Itiúba abraçar meu pai. E lá estavam o senhor, seu irmão Rufino e, claro, meu pai. Só não saberia dizer qual dos três velhos estava mais feliz. Lembro que soprava um vento morno naquele final de tarde. Lá por trás da serra, umas nuvens mostravam suas belezas, como prenúncio de trovoada. Eu, que tinha crescido longe dali e nada entendia de preparo de chuva, perguntei ao tio Rufino se ele achava que ia chover. E o senhor, vovô, se antecipou a ele e disse: — Meu filho, uma chuva esta tarde seria a coroação da sua visita a nós três. Eu não enxergo, mas imagino a fisionomia de Adonias sentado ao lado do filho mais velho, em quem ele fala mais do que fala em dinheiro. Meu pai riu, e meu avô continuou: — Confirme aí, Rufino, se eu estou errado. Tio Rufino sorriu e disse: — Raimundo, você surpreende a todos nós! Poderíamos achar que você enxerga. Adonias está que não se segura; seu sorriso vai de orelha a orelha, e não é só pelo preparo da chuva, não. A razão desse sorriso chama-se presença do filho. E, lhe respondendo, Cordeiro: para Deus nada é impossível, mas acho que hoje não chove. Meus irmãos ali, entusiasmados com minha presença, ainda tímidos, mas com as caras de quem apreciava aquele momento. Minha mãe, de vez em quando, vinha até a sala, dava uma espiadinha e voltava para a cozinha, onde preparava o almoço. Tio Rufino errou. A chuva caiu. Leve, silenciosa, trazendo o cheiro da terra molhada para se misturar ao cheiro do toucinho fritando, que já estava misturado ao cheiro do feijão-de-corda cozinhando. E isso aguçou nossa fome. Mais a minha, que, além da fome de verdade, tinha a saudade daquela comida que só minha mãe sabia fazer — a única que satisfazia meu paladar. Nem tão exigente, porém seletivo. Fomos para a mesa, mas a minha felicidade era tanta que não almocei. Comecei a chorar. Pedi licença, fui para o meu quarto e adormeci. E acordei, vovô. Acordei aqui, nesse quarto velho desta velha pensão. Triste. Chorando por saber que aqueles três velhos já não estão mais aqui. E que, em breve, quando o livro da vida fechar a última página, este velho irá se juntar a vocês. Então já não serão apenas três velhos. Seremos quatro.
S. Paulo, 16/03/2026 CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 25/08/2026
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