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O PÃO DE CADA DIA QUE NÃO É NOSSO

 

Dentre todos os meus relatos, este não poderia ficar de fora.

Foi quando trabalhei de servente numa reforma do Hospital Municipal do Tatuapé. A construtora URBI ENGENHARIA, onde só trabalhei durante um mês, em 1981, servia a famosa “quentinha”. O hospital fornecia aos funcionários refeições completas: café da manhã, café da tarde, almoço e jantar.

Para nós, da contratada, fornecia apenas café, leite e chá pela manhã. Íamos lá pegar o que fosse do nosso agrado: café, café com leite, chá, chá com leite...

Uma vez, misturei chá com leite e o gosto e o cheiro me deram náuseas. De tal maneira que associei aquele cheiro e aquele gosto a velório. Talvez porque o refeitório ficasse no caminho para o necrotério, eu tenha feito essa associação.

O fornecedor de pão, que trazia os pães numa Kombi, provavelmente fornecia para outros clientes, pois havia vários cestos de pão dentro dela, que ficava aberta.

Eu não tinha dinheiro para comprar pão e, num dia errado, numa hora errada, quando estava indo pegar o café, não resisti àquele cesto de pães tão cheiroso. A fome falou mais alto.

Peguei um.

O moço estava voltando, viu, tomou-me o pão e falou:

— Devolve! Isso aí está tudo contado. Se faltar, dá um rolo danado.

Foi uma das grandes decepções da minha vida.

Eu havia aprendido com o mestre RAIMUNDO SOUZA a não furtar nada, em nenhuma circunstância. E, quando, por força da fome, ia fazer isso, fui flagrado.

Vivi lembrando dessa passagem.

Mas a lembrança maior é de uma outra passagem, também envolvendo pão, alguns anos mais tarde, quando eu já trabalhava na PROJETO EDITORES, distante, graças a DEUS, daquela situação.

Enquanto aguardava o semáforo abrir, vi, do outro lado da rua, um velhinho se agachando e pegando um pão que alguém havia deixado cair.

Com a roupa, tirou o excesso de terra do pão e atravessou o semáforo, passando por mim, mastigando o pão.

Já do outro lado, lembrei-me do episódio do pão do hospital.

Eu poderia ter convidado aquele velhinho para um café digno. Poderia ter dado algum dinheiro para ele almoçar...

Graças a DEUS, eu podia.

Mas não tive essa atitude.

E isso arde na minha consciência até hoje.

De modo que, além de ter chorado na hora, estou chorando agora, enquanto escrevo este texto.

O remorso nunca me abandonou.

Às vezes, fico pensando: será que havia mesmo um velhinho naquele lugar? Ou teria sido uma miragem, colocada diante dos meus olhos para que eu refletisse sobre o ser humano?

São Paulo, 14/08/2026

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Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 14/08/2026


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