

GRAÇAS A DEUS, SEU ADONIAS NÃO TINHA RELÓGIO Na minha ITIÚBA, no tempo em que eu era menino e morava na zona rural, os pais pobres — e quase todos eram pobres — mandavam, de vez em quando, seus filhos visitarem padrinhos, amigos ou pessoas de melhor condição financeira. Levavam um presente: uma caça, um cacho de licuri, alguma fruta... Ou levavam apenas a "disposição" para ajudar em alguma coisa. E aqui faço uma pergunta: alguém com fome tem disposição? Se fosse menina, ajudaria a madrinha na labuta doméstica. Se fosse menino e o padrinho tivesse algum serviço, talvez ajudasse. Mas todos iam com uma certeza: não voltariam com a tripa seca. Na casa do vovô, o mestre RAIMUNDO SOUZA, que me criava, graças a DEUS nunca houve escassez. Pelo menos de comida. O que nos faltava era leitura. E ela só chegava às nossas mãos por intermédio de Robério Azeredo, que morava na sede do município e trabalhava em Salvador, no IBGE. De lá ele trazia o mundo impresso: Jornal A Tarde, Tribuna da Bahia, Revista Manchete... O vovô então me mandava à casa dele buscar aquele tesouro. Eu lia primeiro e depois voltava para ler tudo em voz alta para o vovô. Quando cansava da leitura, saía perambulando pela cidade. Os meninos da minha idade passavam horas diante da televisão — novidade naquele tempo. Eu, não. O que realmente me fascinava era ficar parado na porta da relojoaria de Mundinho. Mundinho, morava em Picos, mas mantinha sua relojoaria na sede do município. Eu me debruçava sobre o balcão e ficava, como se diz hoje, "filmando" aquele homem. A lupa presa ao olho, as pinças delicadas, as engrenagens minúsculas... Parecia mágica. Não sei se por boa vontade ou para se livrar daquele menino curioso, um dia ele perguntou: — Gostaria de aprender a consertar relógio? Nossa! Era exatamente o que eu queria ouvir. Respondi sem pensar: — Quero! Então veio a aula: — Chegue em casa, pegue o relógio do seu pai, desmonte e monte novamente. Saí dali frustrado. Porque, naquela época, meu pai não tinha relógio. Graças a DEUS. Pois, se tivesse, eu só teria duas alternativas. A primeira: se não conseguisse montar o relógio funcionando "bonitinho", certamente teria levado uma pisa do meu pai. A segunda: se conseguisse, quem sabe ganharia um emprego na relojoaria de Mundinho. E você não estaria lendo esta crônica. Nem os meus poemas. Muito menos conhecendo a minha história. São Paulo, 17/07/2026 CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 18/07/2026
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