CORDEIRO de ITIÚBA

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SOU MÉDICO, SÓ MÉDICO 02

Eu poderia dizer que não gosto de médico, mas não digo. Afinal, abaixo de DEUS, são os médicos que muitas vezes salvam vidas.

O que eu não gosto é do modo como alguns profissionais tratam, ou cuidam de seus pacientes.

Todo esse blá-blá-blá é só para dizer que, dia desses, saí constrangido do consultório de um desses profissionais.

O clínico geral me pediu alguns exames. De posse dos resultados, pediu uma ressonância do abdômen e me encaminhou para o gastro.

No dia marcado, com o resultado da ressonância na mão, fui lá.

Mas, se arrependimento matasse...

Ao entrar na sala, já percebi que a criatura ali ou não amava a profissão, ou estava recalcada por estar trabalhando em plena segunda-feira.

Pois nem respondeu ao meu bom dia.

Sem levantar os olhos, sem rodeios, perguntou:

— Trouxe os resultados dos exames?

Eu, tentando ainda quebrar o gelo, ser simpático, afinal precisava de um atestado, disse rindo:

— Trouxe. Aqui está. Nem dobrei, para não judiar das letras.

E lhe entreguei, rindo.

A carranca foi a resposta.

Pausadamente, examinou os resultados dos exames. Depois perguntou: — E a pressão, seu CORDEIRO? Tem aferido a pressão? — Sim. Claro. Diariamente.

— E como ela está?

— Não sei.

— Como não sabe? Vai diariamente ao posto de saúde e não sabe como está a pressão?

— Eu não disse que vou ao posto de saúde. Eu vou é até o boteco, tomo um copo de cachaça e se não desmaiar, saio confiante que a pressão está boa.

Ele respirou fundo e perguntou:

— Seu Cordeiro, o senhor bebe?

Respondi:

— Beber, não bebo . Quer dizer, beber até bebo, mas só para comemorar alguma coisa.

E ele, ainda carrancudo, perguntou:

— Como assim? Explique!

Expliquei:

— De segunda a domingo pela manhã, tomo meio copo americano de cachaça e duas latinhas de cerveja para comemorar o amanhecimento do dia.

De segunda a sexta, ao meio-dia, bebo um copo americano de cachaça para abrir o apetite, almoço e tomo quatro latinhas de cerveja para ajudar na digestão.

À noite, tomo dois copos de cachaça enquanto conto para minha esposa como foi meu dia e duas latinhas de cerveja (só duas, para não ter que levantar para ir ao banheiro), para ajudar o remédio da pressão a descer goela abaixo.

E aos finais de semana, no churrasco com amigos e parentes, na minha casa ou na casa deles, eu não sei mensurar.

Ele, cabeça baixa, só escutava.

Quando finalizei minha explicação, ele, sem se livrar da carranca, perguntou:

— E a alimentação? Seu Cordeiro, come o quê?

Disse:

— Sigo o cardápio paulistano: segunda-feira, virado à paulista; terça, dobradinha; quarta, feijoada; quinta, pirão de costela; sexta, rabada bovina; aos sábados, feijoada novamente, porque eu amo. E aos domingos, aquela picanha na brasa, para mudar um pouco.

Aí ele, sem olhar na minha cara, mandou a "paulada":

— Seu Cordeiro, o senhor tem 67 anos. Não pode abusar da saúde. Por isso, a partir de hoje, nem 50 ml de cachaça ou cerveja. Fuja do álcool. E sua alimentação também, a partir de hoje, será apenas de hortaliças e frutas.

E me devolveu os papéis.

Eu, ainda incrédulo com aquele decreto, resolvi fazer uma pergunta:

— Doutor, e de quais frutas eu devo fazer uso? Limão pode?

Ele disse:

— Pode. Limão pode.

Me empolguei coma resposta e arrisquei mais uma pergunta (que não deveria ter feito):

— Ah, doutor... e eu posso misturar uma cachacinha no limão?

Aí ele olhou para mim pela primeira vez.

Mas, da maneira como ele olhou, não tive coragem nem de pedir atestado.

 

S. Paulo, 26/06/2026
www.cordeiropoeta.com.br

CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 26/06/2026
Alterado em 27/06/2026


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