CORDEIRO de ITIÚBA

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ASSIM NA TERRA, COMO NO URUBU

(NA MINHA ITIÚBA, MINHA TERRA!)

 

Foi assim: nos anos 80, quando eu tinha terra no lugar de cérebro, deixei meu Urubu, onde eu tinha tanta terra, e vim para São Paulo, a terra das oportunidades.

Porque eu não queria ser igual ao meu pai, que vivia com as mãos (MAGRAS E BELAS) sujas de terra.

Aqui, imigrante, sem experiência, sem instrução, "sem parentes importantes"... não encontrei a tal “oportunidade”.

Então, tive que voltar a trabalhar com terra. Terra, cimento, pedra... na construção civil.

E, ávido para comprar um "pedaço de terra" (para que quando chegasse na minha terra, ter o orgulho de dizer que tinha uma casa), trabalhava dezesseis horas por dia. Às vezes, dezoito. Seis dias por semana, às vezes os sete. E não trabalhava oito, porque a semana só tem sete.

A terra é de DEUS, mas deu-se nos homens tanta usura, que resolveram lotear cada metro por um valor absurdo.

E quando eu estava com o dinheiro quase completo para comprar a terra dos sonhos, o valor aumentava, e eu tinha que trabalhar mais.

Mas comprei!

Porém, precisava construir. E para isso, tinha que continuar no mesmo ritmo de trabalho.

E tanto trabalhava, que não dava tempo de pensar na minha terra. Digo, minha ITIÚBA.

E se não pensava, não sentia saudade.

E se sentisse saudade, não tinha dinheiro para ir lá.

E se tivesse dinheiro para ir, não tinha dinheiro para comprar os presentes para os parentes (a tradição daquela época era sempre levar presentes).

E se tivesse dinheiro para comprar os presentes e ir, não teria dinheiro para voltar.

De modo que era melhor mesmo nem lembrar de lá.

Lá pelas tantas, quando já tinha dois cômodos construídos, mesmo com o piso ainda de terra, apareceu na minha vida a minha Clara, também da minha ITIÚBA, querendo dividir comigo os problemas, a morada e, quem sabe, filhos e sonhos...

Assim foi.

Os filhos vieram antes da conclusão da casa, antes do dinheiro para a compra das passagens para a visita à nossa terra.

E se às vezes faltava dinheiro para uniformes, material escolar (sim, naquela época, material, uniforme... tudo saía do bolso dos pais), como é que ia sobrar dinheiro para as passagens, agora com mais gente e cada vez mais caras?

Os filhos cresceram e, antes do combinado, nos deram netos (para nos alegrar e também para cuidar), e fomos adiando o sonho.

E estou com medo de ir para debaixo da terra sem o prazer de realizar meu sonho: voltar à minha terra.

 

S. Paulo, 24/06/2026
www.cordeiropoeta.com.br

CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 25/06/2026


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