CORDEIRO de ITIÚBA

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ORIFÍCIO BARULHENTO

Meu relógio biológico está programado para despertar diariamente às quatro da manhã. Já tentei mudar a configuração, mas não consigo.

De segunda a sexta-feira, tudo bem. Está no horário certo, são dias em que eu trabalho. Mas nos finais de semana, não mereço isso.

Pois bem: acordo, levanto, tomo meus remédios e vou fazer minhas necessidades fisiológicas. Número um e número dois. Depois, o banho.

Só que vizinho... ninguém precisa tomar conhecimento de que você está no banheiro. Muito menos do que você está fazendo.

Em casa térrea é assim. Mas em apartamento?

Quando me mudei para este apartamento (até então nunca tinha morado em apartamento), o apartamento debaixo do meu estava ocupado. No mês seguinte, porém, tinha uma placa de ALUGA-SE.

Na semana seguinte, já estava ocupado novamente.

Ocupação que durou um mês e pouco e, de novo, a placa estava lá, pendurada.

Como o novo locatário mudou-se num sábado, nos encontramos no estacionamento do prédio.

Nos apresentamos. Chamava-se Demerval e, além de ser a simpatia em pessoa, estava com uma garrafa de cachaça de Abaíra.

Perguntou se eu conhecia, se apreciava. Disse que não era só um apreciador, era um admirador e conhecedor do item.

E que Abaíra, na minha Bahia, é a capital da cachaça.

Uma dose, mais outra dose e bla, bla, bla...

Chamei:

— Demerval, vamos até a padaria SALETE? Você vai conhecer e tenho certeza de que vai gostar.

O atendimento é ótimo, a panqueca, uma delícia...

Fomos.

Lá me confessou que gostava mesmo era de um scotch.

Pediu um, pediu dois. Pedimos cerveja. Ele pediu uma panqueca, gostou, pediu outra para levar para a esposa.

Ficamos amigos.

Amigos de BUTECO, mas de maneira que trocamos telefone e mensagens todos os dias.

E todo dia, no final do expediente, nos encontrávamos na dita padaria SALETE.

E prosseguíamos nos nossos serviços etílicos.

Até que, dois meses depois, numa quarta-feira, cheguei à padaria e ele já estava lá.

Já tinha tomado uns scotches.

Tomamos mais alguns e, lá pelas tantas, já alterado, ele me disse:

— Seu CORDEIRO, o senhor precisa colocar um silencioso no seu orifício rugoso, porque ele, às quatro da manhã, todo dia, acorda a gente, com esse barulho de escapamento de moto.

Fiquei sem graça, mas ele não se importou.

Pagamos a conta e voltamos para o prédio em silêncio.

Na quinta-feira fui trabalhar e, como na sexta-feira era feriado, de lá fui para o sítio e na segunda-feira, do sítio para o trabalho. À tarde, como sempre, parei na padaria SALETE. Ele não estava. Mandei uma mensagem:

"Demerval, independente do que você disse, dos acordamentos às quatro da manhã, passa aqui na padaria. Vamos tomar umas e conversar mais." Não tive resposta.

Como sempre, tomei meu aperitivo e fui para casa.

Quando entrei no prédio, o apartamento dele estava vazio e a placa ALUGA-SE, de volta ao muro.

 

S. Paulo, 19/06/2026

www.cordeiropoeta.com.br

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Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 24/06/2026
Alterado em 24/06/2026


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