CORDEIRO de ITIÚBA

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AURORA

 

"Oh que saudade que tenho da aurora da minha vida..."  Ah, sinto tanta saudade dessa aurora, dos versos de Casimiro de Abreu. Mas sinto saudade também e muita, é da minha Aurora, quer dizer, da minha Clara, porque ela, diferente das outras meninas era clara, tinha a pele clara, por isso ganhou esse apelido. Mas na certidão de batismo, era Aurora. Na época da chuva, lá no meu Urubu, na minha ITIÚBA (OXE, lá chove sim. Demora, mas chove.), quando os riachos estavam cheios, ela tomando banho no riacho da Aurora (lá tem um riacho com esse nome. Bem que podia ser uma homenagem à minha Aurora, digo, minha Clara), se destacava das outras moças, pela cor, clara, pelo comportamento, pelas atitudes... talvez isso tenha chamado a minha atenção, que sempre gostei do "diferente". A mesmice, nunca me atraiu. Isso me rendia mal estar, rusgas, inimizades, mas era o meu jeito. Que jeito eu podia dar? Mas voltando a Aurora, digo, Clara... ah, nem sei como chamar! Ela foi a aurora da minha vida, clareando cada passo, cada canto dos meus passos pelos caminhos que eu passava pensando nela. Só que o pai dela também passava o tempo todo pensando em mim. Dizia entre familiares, para os amigos, para os conhecidos... aquilo lá é homem pra casar com minha filha! Pra quê? Pra matar ela de fome? Não tem coragem de trabalhar, não sabe trabalhar, só vive com livro debaixo do braço, escrevendo verso, recitando verso. E desde quando livro, verso, sustenta? O que sustenta é trabalhar. E sem trabalhar, o que ele pode oferecer para minha filha? Ela me oferecia amor (sim, ela me amava), eu lhe oferecia meus versos, que ela amava. E, em nome daquele amor, se os versos não nos desse sustento, eu procuraria outro ramo de trabalho. Achávamos isso suficiente. Mas o pai dela não, de maneira, que arrumou uma maneira de me desterrar e enterrar nosso sonho. Distante, ainda vivi iludido por alguns anos, até o dia que eu soube que ela não vivia mais pra mim. Então me refugiei, me enterrei em mim mesmo e segui minha vida. Se é que posso chamar de vida, a vida que levo sem minha Aurora, digo, sem minha Clara, porque olho pra trás e não vejo aurora, não vejo claridade... só o crepúsculo anunciando o que nem eu, nem ela queria. A noite.

 

São Paulo, 18/06/2026

www.cordeiropoeta.com.br

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Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 18/06/2026


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