

O DIA QUE APRENDI A OLHAR PRA CIMA
Uma frase dita em 1994, publicada na imprensa em 2007, que nos últimos dias viralizou, repercutiu nas redes sociais e que diz: “Uma coisa eu digo baiano aqui não entra”, me fez lembrar que já foi assim. Ou pelo menos era quase assim, quando eu aqui cheguei. Porque eu sou um daqueles jovens que desceram do Norte pra cidade grande. Não, não era igual o da música do Belchior. Tinha lágrimas nos olhos de ler o Pessoa, claro. Mas meus pés não estavam cansados, nem feridos, pois já tinha vindo de ônibus. E outro detalhe, eu era lindo. Era não, sou! Então, lembro como se fosse hoje, o dia que cheguei em SAMPA. Jovem, descendo do Norte, mas exatamente da minha Bahia, da minha ITIÚBA, do meu Urubu. Acanhado, tímido, semianalfabeto, calçado com as típicas alpercatas de couro, feitas pelo mestre Melquíades e que permitiam que o frio paulistano deixasse meus pés quase congelados. A primeira impressão que tive é que aqui não era lugar pra mim, a começar pelo frio. Depois aqueles prédios bonitos, mas que eu não podia olhar. Quer dizer, até podia, mas o moço que me trouxe de ITIÚBA me alertou: “se nós nordestinos fica olhando, eles chamam a gente de tabaréu”. “Nortista tabaréu!” E também, “trazia de cabeça uma canção do radio, em que o artista” (de novo Belchior) Zé Geraldo, dizia na música cidadão, “tu tá aí admirado, ou tá querendo roubar?” Pronto! Passava no pátio do colégio, aquelas construções lindas, na avenida São Bento, o edifício Martinelli, fora outros. Na Ipiranga, o prédio copan (obra do célebre Oscar Niemeyer)... olhava de esguelha, pensando é bonito, mas não sou “tabaréu”, não vou olhar. Ah, falando em Niemeyer, essa pérola da arquitetura, lembrei de outra pérola da arquitetura, RUTH VERDE ZEIN (falecida no ano passado) minha colega na revista projeto. Pois é, ela escreveu um artigo na mesma revista, explicando que se tornou arquiteta, porque junto com o pai, ficava olhando as construções, nos centros históricos. Pronto! Aquilo despertou minha curiosidade e a vontade de também olhar. Pensei, se Ruth e o pai dela podem olhar, eu também posso. E desde aquele dia nunca mais tive medo de olhar pra cima. Porque foi olhando pra cima que comecei a entender a cidade e ter uma resposta na ponta da língua para o meu guia itiubense e para quem mais questionasse a minha curiosidade, a minha admiração por aquelas coisas que chamavam minha atenção: Estou olhando sim, estou admirando sim! E daí? Arranca algum pedaço? Meu não arranca. Pelo contrário, acrescenta. E talvez tenha sido também olhando pra cima que comecei a escrever. E escrevi esta crônica, contando como aprendi a olhar pra cima. Quem sabe o guia itiubense, os críticos, os xenofóbos, você... terão a oportunidade de ler este, ou algum outro escrito deste tabaréu, que olha pra cima e sabe por quê! S. Paulo, 08/06/2026
CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 09/06/2026
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