

MARIA JOSÉ, A PÉROLA ITIUBENSE
Sem querer — e não sei por quê — hoje lembrei de Maria José.
Uma pessoa fantástica, lá da fazenda Urubu, na minha ITIÚBA.
Vovô, o mestre RAIMUNDO SOUZA, dizia que ela era uma pérola. Uma pérola negra. E, mais do que isso, foi amiga de D. Bernardina Maria Cordeiro, minha mãe.
São lembranças vagas, mas mexeram comigo.
Eu gostava muito da companhia dela. Tinha paciência comigo e me ensinava sobre a flora local — do jeito que sabia, pelos nomes que conhecia, mas com uma vontade enorme de ensinar:
— Esta aqui é a massangana. Os frutos não têm gosto de nada, mas, meu filho… na hora da fome… — Já a pitomba é azeda que só o diacho, mas é mais suculenta. Mata a fome rapidinho.
— Aqui é o louco (Plumbago scandens). Quando a dor de dente aperta, põe uma lasquinha no buraco… ele arrebenta tudo. E a dor… ó…
— Ah! E aqui é o velame. Sente o cheiro! Você torra as folhas com capa de fumo e faz um rapé. OXE… cura qualquer constipado!
Foi ela também quem botou o nome TIRIGÃO no meu cachorro — talvez quisesse dizer “Tigrão”, mas ficou assim mesmo.
Primeiro e único cachorro que tive. Não servia pra nada — era só amigo. Nem entrava nas dependências da casa. Vovó dizia que era um animal com educação de gente.
Maria José nunca falou da amiga dela — minha mãe. Talvez porque eu nunca tenha perguntado.
Anos depois, já morando em São Paulo, voltei lá. Fui visitá-la. Cheguei até a entrevistá-la… mas ela já não lembrava de muita coisa. Nada que pudesse me ajudar a encontrar minha mãe.
Mas me disse uma frase que me conforta até hoje — e que mudou meu jeito de ver tudo:
— Meu filho, sua mãe não lhe abandonou. A vida separou vocês.
Diferente do meu avô, que achava não ter importância saber onde nasce o rio São Francisco ou qual é a capital de Honduras. Dizia que estudo era coisa pra quem morava na capital, pra gente de família tradicional.
“Estudar pra quê?”
Eu também pensava assim.
Por isso, logo cedo, abandonei os estudos.
Hoje, lembrando de Maria José, bateu o arrependimento.
Se fosse estudar agora, estudaria botânica.
Pra, quem sabe, entender melhor aquilo que ela já sabia — do jeito dela.
Maria José.
Amiga de D. Bernardina Maria Cordeiro.
S. Paulo, 03/02/2022
CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 01/04/2026
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