

CIRO JOÃO, O DENTISTA
Quem nunca caiu na mão de um mau profissional, que levante a mão — e, se possível, conte o milagre, porque o santo a gente já conhece. Tem de tudo nessa vida: bom pedreiro, mau pedreiro; bom médico, mau médico; bom cabeleireiro… e aquele que sai cortando mais do que cabelo. Enfim, o mundo se equilibra assim: um fazendo direito, o outro aprendendo (ou não). Agora, dentista… ah, meu amigo… dentista é diferente. Dentista mexe com coisa séria: o mau dentista, mexe é com o juízo da gente. Eu mesmo tremo só de ouvir o motorzinho. E tenho motivo. Sou de ITIÚBA, Bahia, mas passei um tempo em Filadélfia, ali pertinho. Foi lá que a desgraça — digo, a necessidade — me levou a um consultório dentário. Logo na entrada, uma placa respeitável: Nome bonito. Impunha respeito. Como que eu poderia desconfiar? Era só uma restauraçãozinha, coisa simples. Mas o “doutor” disse que precisava de tratamento. Ia fazer um curativo e que o serviço só ficaria pronto na semana seguinte. Começou ali o meu martírio. Não sei que raio de substância ele colocou no meu dente — se era remédio ou castigo — só sei que passei a semana inteira com um gosto na boca que nem descrição tem. Mistura de ferrugem com pecado antigo. E o hálito… misericórdia. Espantava até pensamento ruim. E não tinha enxaguatório bucal que resolvesse. Voltei lá, já meio desconfiado e muito arrependido. E o “doutor”, com a maior calma do mundo: Normal pra quem, criatura? Terminado o tratamento, o prazo e a minha paciência, pois não melhorou, nem o gosto, nem o bafo, nem a confiança, fiquei aturdido. Foi aí que me caiu a ficha: Na segunda-feira cedo, não pensei duas vezes: peguei o rumo de Itiúba. Cheguei cheio de esperança… e dei de cara com a notícia: Aí foi quase recaída. Mas, como desgraça pouca é bobagem, veio a salvação pela metade: E lá fui eu esperar quinta-feira como quem espera milagre. Lá mesmo em Itiúba, revendo o povo, matando a saudade — e evitando falar de perto com qualquer cristão. Chegou a quinta. Logo cedo, rumei pra Covas. Quando cheguei, já tinha gente esperando. Pensei: Sentei, puxei um livro, fiz de conta que estava tranquilo… mas por dentro era só ansiedade e trauma. De repente, escuto um barulho de moto. O povo logo avisou: Não sei explicar… mas aquele ronco do motor da moto, me deu um arrepio. Aquele ronco, era conhecido. A moto parou. O “doutor” desceu. Tirou o capacete. E foi aí que eu entendi que, na vida, a gente até muda de cidade… Mas certas coisas perseguem a gente. Pois é, debaixo daquele capacete, em cima daquela moto, estava ele. O mesmo. Dr. CIRO JOÃO. O “cirurgião-dentista”.
S. Paulo, 01/07/2014
CORDEIRO de ITIÚBA
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