

CÉDULAS ANTIGAS
Cresci e envelheci ouvindo: “quando a mão coça, é dinheiro chegando”. Pois bem: envelheci, e, que eu lembre, minha mão nunca coçou — e o dinheiro também nunca chegou. Nem pouco. Tenho o hábito de juntar cédulas antigas. Poderia chamar de hobby, mas prefiro dizer hábito mesmo. Só que junto tudo de forma desordenada. Veio a pandemia. No lockdown, resolvi catalogar algumas: organizar, separar as mais conservadas… Nessa labuta, gastei uma tarde inteira. Gostei do resultado. Ficou com cara de trabalho de numismata. Terminei, tirei fotos, passei álcool gel, lavei as mãos com água e sabonete e sorri, satisfeito — ao menos aquela tarde passou rápido. O que não passou rápido — e acabou me levando ao dermatologista — foi uma coceira insistente nas mãos. Provavelmente algum fungo escondido em uma cédula. Ou em todas elas, vingando-se por ter ficado tanto tempo aprisionado naquele catálogo improvisado. O fato é que a lenda — “mãos coçando, dinheiro chegando” — resolveu fazer o caminho inverso: minha mão coçou, mas o dinheiro foi embora. Saiu do meu bolso para o do motorista de aplicativo, para o do médico, para o do farmacêutico e para o do laboratório. Só não sei se as mãos deles estavam coçando
Santo André, 29/10/2021 www.cordeiropoeta.com.br CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 19/03/2026
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