

ALTO MECÂNICA
Sou de ITIÚBA, município do semiárido baiano, mas moro em São Paulo desde 1981. Desde menino, por influência do mestre Raimundo Souza, meu avô, sou apaixonado pelas letras. Aprendi a ler com menos de quatro anos. Escrever veio cedo também — não sei exatamente quando. O que sei é que, chegando aqui em São Paulo, continuei no mesmo ritmo: lendo e escrevendo. Escrevendo pouco, é verdade, mas lendo muito. Fiz alguns cursos, participei de oficinas de escrita, workshops… Não abria mão do sonho de ser escritor. Mesmo sem conhecer gramática. Mas, além do sonho de escrever, tinha outro: o de ser reconhecido. Principalmente na minha terra. Nessa ilusão de ser lido em massa, criei canal no YouTube, fiz um site… E, sempre que escrevia um poema ou uma crônica, postava lá, gravava vídeo, divulgava e pedia aos conhecidos: leiam, assistam, comentem… façam propaganda do conterrâneo escritor. De 2007 pra cá, todo final de ano vou à minha ITIÚBA. Fico na zona rural, só uns quinze dias. Mas preciso visitar alguns irmãos, parentes que moram na sede do município e, principalmente, uma prima que estimo demais. Se vou à cidade e não passo na casa dela — ou pelo menos não a vejo — fico contrariado. Em frente à casa dessa prima tem uma auto mecânica, com uma placa bem chamativa: ALTO MECÂNICA. Aquilo me incomodava. Apesar de conhecer o dono da oficina, de tomar cerveja com ele, não tinha intimidade suficiente pra dizer que ali precisava de uma correção. Até que veio a pandemia. Me afastei do trabalho e aproveitei pra passar mais tempo em ITIÚBA. Fiquei mais na cidade, tomei mais cerveja com os amigos… e, claro, com o dono da mecânica. Ainda não era amigo, mas a conversa fluía. O papo era bom. Num desses bate-papos, resolvi tocar no assunto. — Irineu, faz tempo que venho aqui, tomo cerveja contigo, meus irmãos e primos arrumam carro na tua oficina… Por isso, queria te dizer uma coisa: tua placa tá errada. Não é “alto mecânica”. É auto mecânica. Ele ficou calado por um instante. Depois me olhou firme e falou, com toda sinceridade: — Cordeiro, muito me admira você… Filho de professor, estudou na capital, é escritor — sim, eu sei. Leio suas crônicas, seus poemas. Gosto de quase todos. Não comento porque mal tenho tempo, só dá pra ler. Deu uma pausa e continuou: — Mas agora vou comentar. Seus escritos são cheios de vírgulas desnecessárias. E eu nunca cheguei pra você dizendo: “essa virgulazinha aqui não carece”. Mas o senhor achou de dar pitaco na minha placa… Aquilo já foi me encolhendo por dentro. Mas ele não terminou: — Deixa eu lhe fazer umas perguntas. Como é o nome deste município? — ITIÚBA — respondi. — E o nome deste bairro? — Alto. — E minha oficina fica onde? — No bairro do Alto. Aí ele arrematou: — Pois então… Se minha mecânica fosse em Piaus, era MECÂNICA PIAUS. Se fosse no Popular, era POPULAR MECÂNICA. Mas ela fica é no Alto. Por isso, é ALTO MECÂNICA. Me calei. Tomamos mais algumas cervejas. Dessa vez, não deixei ele pagar a conta. Afinal, aquela lição… aquele sermão… Quando voltei pra São Paulo, a primeira coisa que fiz foi pedir ajuda à inteligência artificial pra tirar o excesso de vírgulas dos meus escritos. S. Paulo, 19/03/2026 CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 19/03/2026
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