

ESCRITORZINHO, É A...
A música Fotografia 3×4, de Belchior, começa assim: “Eu me lembro muito bem do dia que cheguei...”. Eu não me lembro do dia que cheguei. Jovem, descendo do Norte, os pés calçados nas alpercatas de couro, tendo que ouvir o coro de risadas dos paulistas, que achavam aquela arte do mestre Melquíades uma aberração. E eu sem argumentos para me defender. Aliás, quando tentava me defender, piorava a situação, pois o meu vocabulário nordestino era combustível para mais mangação. Na valise, apenas uma bermuda puída e uma camisa. Um desses sonhos era estudar jornalismo. Lia aquelas crônicas editoriais dos jornais e ficava fascinado. Era aquilo que eu queria: escrever. Mesmo que nunca atingisse aquele nível. Sonhava um dia escrever um livro. Quem sabe dois. E falava isso com qualquer pessoa com quem conversava. Mas sempre aparecia um gaiato que ria, duvidava e ainda dizia: — Ah, quando você escrever esse livro, vou fazer assim: leio o princípio, leio o meio… e digo: gostei! E ria sem disfarçar. Eu não gostava. Lembro disso até hoje. Mas aquilo também ficou guardado em algum canto da memória. Na obra onde trabalhava de servente, os meus colegas serventes — também nordestinos — me entendiam e não riam, pois usavam o mesmo vocabulário. Motivo suficiente para formarmos grupos e, nos intervalos, irmos para os botecos tomar cachaça em grandes goles, numa volúpia, numa ganância, como se fosse sempre o último gole. Ali falávamos da nossa terra, dos parentes… no nosso sotaque, com o nosso vocabulário. E esquecíamos a saudade, a solidão e a pressão financeira. Mas isso durava pouco. Ao voltar para o canteiro, lá vinham os tiradores de sarro. E o engraçado é que muitos deles também eram nordestinos. Mas, por estarem numa posição um pouco mais elevada — por terem uma profissão — achavam-se no direito de debochar dos outros. Foi então que Deus me deu uma luz. Como eu já tinha lido Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna — nordestinos de renome — comecei a me expressar em NORDESTINÊS, em alta e boa dicção. E quando o “didata” vinha me perguntar o que aquela palavra significava, eu respondia com a maior calma: — Está em tal livro, do escritor fulano de tal. Leia que você vai ficar sabendo. Depois acrescentava, com a malícia que só os humilhados aprendem: — Ah, é… esqueci. Você sabe ler? Foi assim que encontrei um jeito de defender a minha dignidade. Não era vingança grande, dessas de fazer barulho. Uma palavra nordestina, pronunciada em alta e boa dicção. Foi assim que aquele servente de obra, de alpercata de couro nos pés, começou a descobrir que talvez não fosse apenas um operário da enxada e da colher de pedreiro. Talvez fosse também um escritorzinho. E eu me vingava por mim e pelos meus “CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA” Conterrâneos e contemporâneos. S. Paulo, 12/03/2026
CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 13/03/2026
Alterado em 22/03/2026 Comentários
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