

NORDESTE JÁ
No meu Urubu, zona rural da minha ITIÚBA, na minha infância, aquele cidadão humilde, de poucos recursos, que pra alimentar os filhos, com a escassez de comida, se valia da caça era criticado pelo meu avô, o mestre RAIMUNDO SOUZA, que preconceituosamente dizia: fulano só fede a caça (Naquela época, talvez existisse a lei de proteção aos animais, mas poucos tinham conhecimento. Principalmente na zona rural, onde quase ninguém tinha acesso à notícia.)! Eu apoiava, como apoiava tudo o que ele dizia, ou fazia, tamanha era a minha idolatria por aquele homem. Muitos anos depois, é que vim entender a real situação daquela gente, daquele lugar. Não só da minha comunidade, mas de todo o Nordeste. Num tempo em que era preciso campanha para arrecadação de alimentos para aquele povo. Ainda há a música SOS NORDESTE JÁ, que não me deixa mentir. Podem checar. Muito bem, o alimento, com esses apelos, até chegava para alguns. Não matava a fome porque migalhas não mata fome, porém amenizava. Já a água... A água dependia de chuva e a chuva depende de DEUS. E como é do conhecimento de todos, em matéria de chuva, DEUS nunca foi muito generoso com o Nordeste, como é com outras regiões do país. De modo que naquela época, a água (em determinadas estações, às vezes em todas. Às vezes, por anos seguidos.), só chegava no pote das famílias pelo lombo de animais. Os que não possuíam animal, tinha que buscar na cabeça, ou nos ombros. E eu estou falando de água potável, amigo leitor. Para o banho e a lavagem de roupas, era mais complicado ainda, porque em algumas fontes, o uso era exclusivo para beber. O meu avô, que tinha tempo, uma posição social a zelar e recursos para pagar quem viesse abastecer o seu reservatório, tomava banho todos os dias, mas aquele cidadão humilde que ele criticava não. Não tomava banho diariamente, nem trocava de roupa com a mesma frequência do mestre RAIMUNDO SOUZA, porque além dos problemas já descritos, tinha também o preço do sabão. Não que fosse caro, é porque o cidadão não tinha dinheiro mesmo! Hoje, está diferente, não tem mais aquele flagelo. Graças a DEUS. A maioria das casas tem cisterna, que está sempre abastecida. Se não chover, um caminhão pipa vai lá e abastece. Sem contar os poços artesianos com água de qualidade e as escavações na propriedade do cidadão, para reservar água para os animais. Agora é possível tomar banho quantas vezes quiser. O fedor da caça não é mais predominante ali. Claro que não se pode mais comer uma juriti assada, por conta do rigor da lei, mas em compensação o cidadão nordestino graças a um presidente nordestino, hoje tem comida na mesa pra alimentar seus filhos.
Registros de memória de um nordestino que não esquece a raiz, para que a história não seja incinerada pelo tempo
S. Paulo, 25/07/2022 CORDEIRO de ITIÚBA
Enviado por CORDEIRO de ITIÚBA em 27/02/2026
Alterado em 22/03/2026 Comentários
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